Brasil Deve Investir R$ 126,9 Bilhões em Cibersegurança até 2029, Aponta Estudo da Brasscom

Estudo da Brasscom projeta salto nos investimentos em cibersegurança no Brasil até 2029, mas alerta para riscos com Shadow AI e vulnerabilidades em cadeias de suprimentos.

O mercado brasileiro deve movimentar R$ 126,9 bilhões em produtos e serviços de cibersegurança de forma acumulada entre 2026 e 2029. A projeção consta no Relatório de Cibersegurança 2026, elaborado pela Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais (Brasscom), em parceria com a Associação Brasileira de Segurança Cibernética (Abraseci) e a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP). O avanço financeiro desenha um salto de 49% nos gastos anuais, saindo de R$ 25,6 bilhões projetados para 2026 até R$ 38,2 bilhões ao final do ciclo.

Apesar da curva ascendente nos aportes, o diagnóstico setorial aponta que a proteção digital no país ainda enfrenta descompassos estruturais de governança. As empresas brasileiras alocam em média 6,4% de seus orçamentos de tecnologia da informação (TI) para segurança digital, índice inferior à faixa de referência internacional, situada entre 8% e 12%. Ao mesmo tempo, o crescimento expressivo de fraudes eletrônicas e a adoção desordenada de inteligência artificial ampliam os vetores de exposição a ataques.

Governança de IA e a ameaça invisível da Shadow AI

Um dos pontos mais críticos mapeados pelo relatório é a falta de maturidade institucional frente à inteligência artificial generativa. Cerca de 87% das organizações sediadas no Brasil ainda não instituíram uma política formal de governança para o uso de ferramentas de IA. Essa lacuna fomenta o avanço da chamada Shadow AI, termo que designa o uso não supervisionado de plataformas inteligentes por colaboradores para processar informações de negócios e código-fonte corporativo sem autorização das equipes técnicas.

De acordo com os dados compilados no relatório, violações cibernéticas associadas ao uso não controlado de inteligência artificial elevam o custo de um incidente em US$ 109 mil no Brasil, um acréscimo médio de 8% nos prejuízos. Em contrapartida, quando a inteligência artificial e a automação são integradas formalmente aos sistemas de defesa cibernética — como ferramentas de detecção preditiva e resposta rápida a incidentes —, o efeito é inverso: a redução média do custo total de contenção chega a 26%, gerando uma economia aproximada de US$ 400 mil por ocorrência.

Para Affonso Nina, presidente executivo da Brasscom, o crescimento sustentado dos investimentos reflete a transformação da cibersegurança em um vetor indispensável de competitividade para a economia brasileira, exigindo a união entre governança formal corporativa, automação e defesas baseadas em IA defensiva.

Vulnerabilidade na cadeia de suprimentos e risco de terceiros

Outro vetor que pressiona o orçamento das companhias é a gestão de segurança na cadeia de fornecedores. O estudo indica que vulnerabilidades originadas em prestadores de serviços terceirizados aumentam os custos de uma violação em US$ 320 mil no mercado nacional, o que representa uma elevação de 24% em comparação com incidentes isolados em redes próprias.

Com a descentralização de serviços para ambientes de nuvem, plataformas SaaS e parceiros integrados via APIs, falhas de autenticação ou brechas de segurança em empresas contratadas tornam-se rotas frequentes para acesso não autorizado. Especialistas destacam que a contratação de tecnologia exige auditorias contínuas de postura de segurança em terceiros, substituindo checagens pontuais e formulários de conformidade por monitoramento ativo de riscos de fornecedores.

Custo dos incidentes e lentidão na recuperação operacional

O impacto financeiro de invasões e vazamentos continua em níveis elevados. O levantamento aponta que o custo médio de uma violação de dados no Brasil atingiu US$ 1,3 milhão. Além das perdas financeiras diretas, a continuidade dos negócios é severamente comprometida: cerca de 76% das companhias afetadas precisaram de mais de 100 dias para restabelecer completamente suas operações após um ataque. Dessas empresas, 65% continuaram registrando desdobramentos negativos e reflexos operacionais mesmo após a restauração técnica.

O ambiente hostil é corroborado por estatísticas públicas de criminalidade digital. Conforme os registros reunidos pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública e citados no estudo, o Brasil contabilizou 346,8 mil ocorrências de estelionato eletrônico em 2025, o que representa um aumento de 21,1% frente ao ano anterior. Em termos de ameaças corporativas avançadas, o país liderou a América Latina em ataques de ransomware, com 141 organizações afetadas no último ciclo anual.

Avanço em índices globais e transição para arquiteturas Zero Trust

Apesar da intensidade dos ataques, o Brasil tem obtido avanços em avaliações internacionais de capacidade cibernética. No Global Cybersecurity Index (GCI), coordenado pela União Internacional de Telecomunicações (UIT), o país atingiu 96,4 pontos, mantendo-se no chamado Tier 1, categoria reservada às nações que demonstram compromisso elevado com o desenvolvimento de marcos legais e técnicos de proteção cibernética. Já no National Cyber Security Index (NCSI), a pontuação nacional saltou de 50,65 para 71,67.

Para consolidar esse amadurecimento e absorver o volume de R$ 126,9 bilhões até 2029, a Brasscom aponta que as organizações precisam migrar definitivamente de posturas meramente reativas para arquiteturas do tipo Zero Trust (confiança zero). Esse modelo baseia-se na verificação ininterrupta de identidade e privilégios mínimos de acesso. A entidade também ressalta a necessidade urgente de expansão de Centros de Operações de Segurança (SOCs) equipados com detecção proativa e de programas educacionais que reduzam o déficit crônico de especialistas qualificados em segurança da informação no país.

Brasscom / Relatório de Cibersegurança 2026

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