O ecossistema digital brasileiro enfrenta uma escalada contundente na frequência e na intensidade dos incidentes cibernéticos. Dados consolidados pelo Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes de Segurança no Brasil (CERT.br), departamento mantido pelo Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), revelam que as notificações de ataques de negação de serviço (DoS e DDoS) atingiram 94.264 ocorrências entre janeiro e setembro de 2026. O volume representa um salto expressivo quando comparado ao acumulado de todo o ano de 2025, quando haviam sido registradas 26.418 notificações da mesma categoria.
O crescimento dessas ocorrências reflete tanto o aumento na capacidade de mobilização de tráfego hostil por botnets e redes comprometidas quanto a pressão direta sobre a disponibilidade de sistemas de serviços essenciais, comércio eletrônico e infraestruturas do setor público. Paralelamente ao aumento dos ataques de indisponibilidade, os golpes eletrônicos continuam em expansão, com um contingente expressivo de cidadãos e organizações afetados por práticas fraudulentas cada vez mais sofisticadas.
Disparada de incidentes DoS e a pressão sobre redes corporativas
Os ataques de negação de serviço consistem no envio massivo de requisições ou pacotes de dados direcionados a um determinado servidor, aplicativo ou link de rede, com o objetivo de exaurir recursos computacionais e interromper a entrega dos serviços. Em incidentes distribuídos (DDoS), o tráfego parte de milhares de dispositivos geograficamente dispersos — frequentemente roteadores domésticos mal configurados, dispositivos de Internet das Coisas (IoT) sem senhas seguras e servidores expostos a vulnerabilidades conhecidas.
O aumento observado até setembro de 2026 demonstra que operadores maliciosos têm ampliado o emprego de automação e vetores combinados de amplificação volumétrica. Diferente de invasões focadas em exfiltração de dados, os ataques DoS atingem diretamente a camada de disponibilidade, provocando perdas financeiras imediatas por inoperância de sistemas, degradação de acordos de nível de serviço (SLA) e custos imprevistos com contenção de tráfego anômalo.
Phishing lidera fraudes com apoio de inteligência artificial generativa
Enquanto os incidentes volumétricos afetam redes e servidores, as fraudes digitais mantêm os usuários finais como alvo primordial. No panorama do CERT.br, os registros de phishing continuam a constituir a ampla maioria das fraudes notificadas — correspondendo a mais de 90% das comunicações nesse segmento, com 22.818 casos de um universo de 24.030 ocorrências contabilizadas nas séries recentes.
A evolução das ferramentas de inteligência artificial generativa tem exercido papel determinante na transformação do phishing. Golpistas deixaram de lado mensagens com erros grosseiros de ortografia ou formatações inconsistentes. Com a aplicação de modelos de linguagem, as campanhas maliciosas agora simulam com precisão comunicados bancários, notificações judiciais, faturas fiscais e solicitações corporativas de rotina.
A personalização em massa permite que cibercriminosos correlacionem informações previamente vazadas na internet — como nomes, ocupações e contatos corporativos — para construir cenários verossímeis de engenharia social. O resultado é uma taxa de conversão mais alta para páginas fraudulentas que visam o roubo de credenciais de login, senhas de internet banking e códigos temporários de verificação.
Estelionato eletrônico cresce 20,6% e atinge milhões no país
A dimensão prática dessa atividade criminosa fica evidente nos relatórios consolidados da área de segurança pública. Conforme indicadores compilados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o Brasil contabilizou mais de 2,26 milhões de ocorrências de estelionato ao longo do último ano registrado, abarcando modalidades presenciais e eletrônicas. Dentre elas, 346.753 ocorrências foram classificadas formalmente como estelionato cometido por meio eletrônico, o que representou uma elevação de 20,6% em doze meses.
Pesquisas do FBSP indicam ainda que cerca de 15,8% dos brasileiros com 16 anos ou mais afirmaram já ter sofrido perdas financeiras em decorrência de fraudes digitais aplicadas pela internet ou por aparelhos celulares nos últimos doze meses — contingente estimado em aproximadamente 26,3 milhões de pessoas. Mais de 83% dos cidadãos entrevistados apontam receio explícito de cair em armadilhas cibernéticas, demonstrando um estado generalizado de desconfiança digital.
Medidas essenciais para mitigar riscos de interrupção e fraude
Frente a um panorama em que ameaças volumétricas e engenharia social avançam de modo simultâneo, especialistas em segurança da informação recomendam às organizações a estruturação de camadas complementares de defesa cibernética e governança digital.
Resiliência de rede e contingência contra negação de serviço
- Adoção de serviços de mitigação em nuvem: Implementar redes de distribuição de conteúdo (CDNs) e sistemas especializados de proteção anti-DDoS capazes de absorver picos massivos de requisições antes que atinjam os servidores de origem.
- Gestão rigorosa de portas e protocolos: Desativar serviços desnecessários expostos à internet pública e limitar tráfegos amplificadores comumente explorados, como DNS e NTP abertos.
- Monitoramento contínuo de tráfego e telemetria: Estabelecer limiares automáticos de detecção para anomalias de taxa de pacotes (rate limiting) e planos de acionamento imediato de rotas alternativas.
Prevenção contra phishing e credenciais comprometidas
- Autenticação forte resistente a phishing: Priorizar chaves físicas de segurança e protocolos baseados no padrão FIDO2/Passkeys, reduzindo a vulnerabilidade da autenticação multifator via SMS ou aplicativos vulneráveis a clonagem de sessão.
- Capacitação e simulações com equipes internas: Desenvolver treinamentos periódicos com foco nas novas abordagens de engenharia social potencializadas por inteligência artificial, orientando colaboradores sobre canais formais de validação de demandas financeiras ou operacionais.
- Monitoramento de exposição e presença de marca: Manter vigilância ativa contra domínios recém-registrados que façam uso de termos homóglifos (typosquatting) e páginas falsas que utilizem indevidamente a identidade corporativa para lesar consumidores.
O quadro registrado pelas entidades reguladoras e de resposta a incidentes reforça que a proteção de dados e a segurança das aplicações não constituem medidas isoladas, mas sim uma exigência permanente de conformidade e continuidade operacional para qualquer organização atuante na economia digital brasileira.
CERT.br/NIC.br e Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP)





