Ataques a sistemas ciberfísicos atingem 45% das empresas na América Latina e causam paralisação operacional, aponta estudo

Estudo da Claroty revela que 45% das empresas na América Latina sofreram ataques a sistemas ciberfísicos nos últimos 12 meses, com mais da metade registrando paralisação total das operações industriais e corporativas.

A convergência entre a tecnologia da informação (TI) e a tecnologia operacional (TO) transformou a gestão de indústrias, serviços essenciais e cadeias de suprimentos na América Latina, mas também ampliou a vulnerabilidade contra incidentes cibernéticos graves. Nos últimos 12 meses, 45% das organizações latino-americanas enfrentaram pelo menos um ataque cibernético que comprometeu sistemas ciberfísicos (CPS) ou ambientes operacionais. Os dados constam no relatório global The Global State of Operational Security 2026: Protecting Operations Evolves as a Core Business Capability, produzido pela Claroty com base em entrevistas com 2 mil lideranças corporativas e de tecnologia em mais de 40 países, incluindo o Brasil.

O impacto dessas ofensivas ultrapassa o roubo ou sequestro de dados corporativos tradicionais. Entre as empresas latino-americanas que registraram incidentes envolvendo sistemas ciberfísicos no período analisado, 55% relataram paralisação total das operações. A interrupção provocou prejuízos diretos ao fornecimento de produtos e serviços: em 30% das ocorrências, as atividades ficaram totalmente suspensas por períodos entre 5 e 12 horas, enquanto 13% das organizações enfrentaram interrupções que duraram de 3 a 7 dias consecutivos.

O que são sistemas ciberfísicos e por que se tornaram o novo alvo crítico

Sistemas ciberfísicos (CPS, na sigla em inglês) englobam infraestruturas em que softwares e redes de computadores monitoram e controlam diretamente processos mecânicos ou operacionais no mundo físico. Essa categoria inclui controladores lógicos programáveis (PLCs), sistemas supervisórios SCADA, sensores industriais de Internet das Coisas (IoT), dispositivos médicos conectados (IoMT) e controladores de automação predial ou energética.

Tradicionalmente isoladas em redes fechadas (conhecidas historicamente como air-gapped), as infraestruturas operacionais passaram a ser interconectadas à nuvem, a softwares de gestão empresarial (ERP) e a canais de suporte remoto para viabilizar automação, manutenção preditiva e otimização produtiva. Essa união reduziu a separação física que resguardava fábricas, usinas e hospitais.

Segundo Fernando Zolko, vice-presidente regional da Claroty para a América Latina, quando um incidente afeta esse tipo de infraestrutura, as consequências deixam a esfera puramente lógica. O executivo destaca que tais investidas afetam equipamentos físicos, linhas fabris, a integridade das instalações, a segurança das equipes em campo e a própria capacidade de sustentação do negócio no curto prazo.

Acesso remoto de terceiros é o principal vetor de risco identificado

O relatório ressalta que o acesso remoto concedido a terceiros — como fornecedores de equipamentos, consultorias de manutenção e parceiros terceirizados — representa uma das principais fragilidades dos ecossistemas de TO na região. No recorte da América Latina, 62% das lideranças apontaram essas conexões como um risco direto à continuidade dos ambientes produtivos.

A preocupação tem respaldo em eventos concretos: 68% dos gestores que identificaram esse vetor afirmaram já ter enfrentado ao menos um incidente operacional originado a partir de credenciais ou conexões de prestadores externos.

A visibilidade deficiente agrava a vulnerabilidade. Em nível global, quase metade dos operadores (49%) admitiu monitorar apenas parcialmente ou não manter qualquer registro em tempo real das conexões efetuadas por parceiros em suas redes de comando. Além disso, apenas 16% das companhias relatam ter concluído uma integração plena de governança entre as equipes de segurança de TI e os responsáveis pelas operações de fábrica ou campo.

Inteligência artificial amplia a eficiência produtiva, mas introduz vetores de ameaça

O avanço da inteligência artificial no ambiente industrial e em plantas de infraestrutura crítica divide a percepção das empresas participantes. Conforme o levantamento, 35% das organizações latino-americanas já utilizam ferramentas de IA aplicadas a ambientes de tecnologia operacional e sistemas ciberfísicos.

Entre as empresas que adotaram a tecnologia, 55% informaram ganhos tangíveis de eficiência nas rotinas industriais e logísticas. No entanto, a incorporação acelerada dessas ferramentas sem governança estrita trouxe preocupações imediatas: 28% das instituições detectaram novos riscos cibernéticos vinculados à própria implementação da tecnologia.

Quando questionados sobre as principais ameaças ao ecossistema produtivo, 29% dos líderes corporativos na região apontaram os ataques cibernéticos aprimorados por inteligência artificial como uma das maiores fontes de preocupação para a integridade física e operacional das companhias. Cibercriminosos têm utilizado rotinas automatizadas para acelerar o reconhecimento de falhas em firmwares desatualizados e criar técnicas de evasão direcionadas a sistemas de telemetria.

Impactos financeiros e o cenário para o mercado brasileiro

Globalmente, a média de prejuízo financeiro causado por um único incidente que atinge ambientes operacionais foi calculada em US$ 1,04 milhão pelo estudo. Em companhias de grande porte, esse montante atinge valores ainda mais elevados: organizações com mais de 5 mil funcionários relataram perdas médias de US$ 1,6 milhão, ao passo que estruturas corporativas com mais de 10 mil colaboradores enfrentaram impactos médios de US$ 2,25 milhões por ocorrência.

No Brasil, a intensificação de incidentes em sistemas operacionais atinge segmentos que aceleraram a digitalização nos últimos anos, como agronegócio de precisão, plantas de energia renovável, distribuidoras de utilidades públicas, centros de logística e o setor médico-hospitalar. Muitas dessas estruturas utilizam ativos com ciclos de vida extensos — equipamentos que permanecem ativos por 10 a 20 anos —, que não recebem correções de firmware regulares ou não suportam autenticações multifator nativas.

Prioridades para reforçar a resiliência operacional

Diante desse panorama, o estudo aponta medidas fundamentais para impedir que incursões virtuais paralisem processos físicos essenciais:

  • Inventário unificado de ativos: Mapeamento contínuo e em tempo real de todos os equipamentos ciberfísicos, controladores e dispositivos IoT conectados às redes da organização.
  • Segmentação de redes: Imposição de barreiras rígidas de microsegmentação entre a rede corporativa convencional e as zonas de controle operacional, evitando que um comprometimento em estações de trabalho de escritório migre para linhas de produção.
  • Gestão de privilégios para terceiros: Aplicação do princípio de privilégio mínimo e monitoramento em tempo real com gravação de sessões para quaisquer acessos externos autorizados.
  • Planos de continuidade integrados: Alinhamento entre os planos de contingência de TI e as rotinas manuais de emergência das equipes de engenharia e operações fabris.

Claroty / Divulgação

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